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Gato Pardo

Para quem não conhecia, saiam enquanto é tempo...Para quem já conheceu, puxem duma cadeira...Vem aí a versão 2.0...

Bandas de tributo? Venham elas...

Se há coisa que adoro mais que bandas, é bandas de tributo. Porquê? Sei lá eu, caraças. Já bebi uma garrafa de vinho branco e 8 minis,. logo estou isento da responsabilidade de responder a questões demasiado complexas como essas.

Voltando ao cerne da questão...Há algo de maravilhosamente complexo numa banda de tributo. Tens de saber as músicas a quem desejas prestar o devido tributo mas estás-te completamente a borrifar se a coisa sai como deve ser ou tem mais pregos que um caixão venezuelano.

Dois dias atrás fui beber um café e um martini ao final da noite. Nada de especial, não fosse o facto do café em questão ter música ao vivo naquela noite. Fantástico, disse eu. Bute nessa, Vanessa. Até ao primeiro minuto da actuação. Eu passo a explicar...

- Um guitarrista solo com idade para ser meu tetravô, camisa de flanela que não devia ser lavada desde os tempos dos Nirvana nos anos 90 e cigarro na canto da boca à João Cabeleira (pesquisem que é, suas bestas....)

- Um guitarrista ritmo com toda a pinta de ser primo em 1º grau do Toy, uma voz um cadito arranhada e um sentido de humor semelhante ao meu...quando tinha 6 anos....

- Um baixista....filho do dono do café...Querem mesmo que desenvolva, porra?

- Um baterista absolutamente psicótico...Louco....A dar-lhe como se não houvesse amanhã...A insultar o público por não bater palmas e a ameaçar porrada se não juntassem as mãozinhas.... O meu tipo de músico, portanto....

Gostei. Deu para desanuviar um pouco....

Religião. Como não adorá-la?

Último post em Fevereiro???

Porra, que me estou mesmo a lixar para isto. Nem fazia ideia.

Bem, após um interregno de praticamente 7 meses, quero abordar uma das coisas que mais amo nesta vida. Não, não é a aguardente. Não, também não é o sexo selvagem e duradouro. Pois, embora adore também não é difamar o trabalho da Margarida Rebelo Pinto (podia ser pior, podia plagiar aquela m*rda...).

É religião? Claro que é, porra! E porquê, perguntam vocês?

Bem, porque basicamente tive de marcar presença num baptizado. E claro está, eu adoro tudo que envolve religião. Especialmente freiras (mas isso são outras cantigas e fetiches muito específicos). Aprendi muito com o padre hoje. Senão vejamos...

- Somos todos uns pecadores (e ele disse isso com ar reprovador a olhar especificamente para mim o que me deixou a pensar "mau, o que é que este cabr*o sabe...")

- Somos todos pecadores mas há uns mais pecadores que outros (a m*rda é que ele continuava a olhar para mim e eu por esta altura já tinha mudado de lugar 3 vezes...)

- Para além de pecadores, somos todos uns mentirosos do caraças. O homem pergunta se estamos dispostos a abdicar do rancor. Sim. Ele pergunta se estamos dispostos a abdicar do ódio no coração. Sure, why not...E depois pergunta se estamos dispostos a abdicar dos telemóveis??? Metade dos fiéis tiveram um AVC ali mesmo. A outra metade estava a jogar Candy Crush e nem ouviu o que ele disse...Sorte a deles!

- E depois esta pérola... "Não pode comungar quem esteve de férias e ainda não se confessou". Portanto, há uma série de mulheres doidas que se portaram mal à brava nas férias e enquanto não se descoserem ao santo padre, estão bem lixadas. Não sei especificar ao certo quantas personagens serão mas se bem me recordo das poucas missas que assisti na vida, costumam ser mais as pessoas que recebem bolachinha do que aquelas que ficam sentadas com a cabeça enfiada entre os joelhos a pensar "porra, eu bem sabia que não devia ter bebido aquela sétima garrafa de branco alentejano..."

Eu devia ter ido para padre. Faz falta mais comédia como aquela que assisti hoje. Mas o cachet tinha de ser discutido.

Mas tenho mesmo de escrever um título para este post? Porra pá, não me apetece nada...

Nesta semana que passou, levei um familiar a enterrar.

Apesar da inevitabilidade da partida, achei curioso verificar que a família à medida que os anos passam, só se encontram nestas situações. Quer dizer, o pessoal podia encontrar-se de vez em quando e ir comer uns ovos mexidos e com farinheira regados com um tinto de Reserva de 2011. Epá, eu até aceitava uma ou duas minis que até nem sou um gajo esquisito. Mas não. Ainda o homem ia a caminho do crematório e aqui o je lança a bomba C que é como quem diz e passo a citar "Malta, não é por nada mas nós como família, somos uns COMODISTAS de m*rda. Porra, mas para sabermos se estamos vivos, é preciso um de nós morrer???"

A resposta? Um silêncio sepulcral (sim, podia ser uma metáfora mas o homem foi cremado, não sepultado...). Portanto, toda a gente concorda que devíamos fazer mais mas ninguém está para isso. Despedimo-nos com uma espécie de "gostei de te ver e a gente encontra-se quando morrer o próximo...".

Claro que no meio de tanta família, encontramos um pouco de tudo. Os tios que já não conhecemos, as tias das quais temos uma vaga lembrança, os primos dos quais te recordas bem por causa das cadeiras que lhes enfiaste pela narina esquerda quando eras pequeno. Ah, e aqueles fulanos que não sabes bem quais os laços familiares que partilham contigo mas que sabes que odeias visceralmente. Não por alguma razão em particular. É mesmo tudo. E eu sei que o sentimento é deveras recíproco, tanto que existe sempre um certo receio que nós dois estejamos presentes em funerais. Porque a agência funerária só foi contratada para lidar com um defunto e pode acabar na pior das hipóteses a lidar com três. A parte má? É alguém ter de pagar a conta, não é a funerária ter mais trabalho. Isso eles agradecem.

E que mais? Bem, parece que o Trump é o novo (p)residente dos Estados Unidos. A consequência mais visível disso? Os humoristas nunca tiveram tanto material na vida e o Saturday Night Live está melhor que nunca. Tenho uma carrada de pisa papéis espalhados pelo escritório a que chamo livros aos quais tenho de dar alguma atenção.

Agora vou ali informar-me de factos alternativos sobre um atentado na Suécia. Mas vindo de quem vem, pode ter sido um queijo amanteigado que foi esfaqueado no Seixal. Fake news, fake news...

Dia Mundial da Gratidão

Tal como muitos aqui, alguns dos meus amigos mais próximos julgavam que eu já havia morrido e parte de mim já tido sido devorado por linces ibéricos que por engano haviam entrado pela minha marquise em busca do advogado da Angelina Jolie. Mas não, ainda não. E como estou vivo, isso significa beber café (continuo a ser um ex fumador...por ora) e dizer mais de uma dúzia de caralhadas numa frase de 5 palavras de três letras cada só porque sim. Faz parte do meu apanágio e alegria de viver.

No entanto, é inegável que não estou bem. Não me sinto bem. Se existisse um Nobel da Medicina para a ironia médica mais cruel a absurda de sempre, eu ganhava-o...

- Doutor, deixei de fumar!

- Mas isso é óptimo...

- Não, porra!!! Nunca me senti pior na p*ta da minha vida...

Através desse meu amigo (que passou o café inteiro a olhar para mim como alguém que olha para os familiares de um defunto numa missa de corpo presente e tenta encontrar algumas palavras decentes e ao mesmo tempo, rezar a todos os santinhos para que aquele longo suspiro antes de ter acendido mais um cigarro não venha a ser a causa de uma qualquer frustrada tentativa de suicídio minha por excesso de visionamento da Casa dos Segredos...), vim a saber que ontem (sim, estou a escrever isto a tarde e a más horas, como de costume) foi o Dia Mundial da Gratidão.

- Tens algo a agradecer a alguém? - perguntou-me ele.

- Claro. Agradeço-te que não mandes o fumo do teu cigarro para cima de mim.

- Ainda te incomoda?

- Não. É que podes acabar vítima de um homicídio, só isso. Estou apenas a zelar pelo teu bem estar, nada mais.

Se eu tenho algo a agradecer... Agradeço o acordar todos os dias, porque já senti na pele a vida a fugir-me, a luz ao fundo do túnel e digo-vos...é uma grande m*rda. Agradeço ter um trabalho para poder reclamar dele, um vencimento para estar constantemente a f*der a contabilidade que ele é baixo demais e uma pausa para cigarro agora que deixei de fumar. Agradeço a mim mesmo desde o dia 28 de Janeiro de 2016. E curiosamente, quero mesmo mas mesmo agradecer à Angelina Jolie e ao Brad Pitt pelo casamento deles ter ido com os porcos. Não por maldade, sejamos claros. Mas apenas por me provarem que o karma é mesmo uma coisa f*dida e que independentemente dos anos que passem, o equilíbrio cósmico é uma cena mesmo muito marada (isso e eu ter deixado de fumar). E se há equilíbrio, então alguém tem uma dívida incomensurável para comigo.

Há coisas beras que um gajo releva

Há coisas más que um gajo esquece.

E há atitudes tão profundamente porcas que são simplesmente imperdoáveis.

Vejamos se ao expurgar toda esta minha "gratidão", as coisas normalizam aqui. A ver se na próxima semana chamo a senhora da limpeza, vou comprar uns detergentes ao LIDL e tirar as teias de aranha a este cantinho de má fama literária e humor negro. Vocês precisam de alguém que vos faça rir e eu preciso de escrever. É um match made in heaven.

Mais de 4 meses depois...

...eis que o felino decide dar um sinal de vida por aqui.

Não que me sinta muito inspirado para escrever grandes odes maradas sobre as presidenciais norte americanas nem nada do género. É só mesmo para limpar o pó, passar o aspirador, mudar os lençóis e lembrar a mim mesmo que outrora isto foi um blog a sério, teve mais destaques do que a Cláudia Jacques teve gajos no meio das pernas e que até para mim, é possível manter um mínimo de originalidade literária sendo um ex fumador vai para mais de 60 dias.

Um dia destes eu volto.

Quando perdemos aquilo que nos é mais importante, é quando percebemos o quão errados estivemos uma vida inteira. Porque os pequenos instantes, duram uma eternidade...

Como o vídeo indica, este podia ser um post sobre futebol. Mas não é. É sobre muito mais que isso.

O nome Quinito é desconhecido desta nova geração de aficionados do futebol. Mas se disser que foi treinador do Porto, Guimarães, Espinho e Estrela da Amadora, aí se calhar já tenho a vossa atenção.

Admito que muitas vezes me questionei do paradeiro deste senhor. Sabemos que o futebol é fértil em treinadores mas há sujeitos que nunca se esquecem. Quinito era um deles. Soube agora que Quinito se condenou a ele mesmo a um hiato por opção devido ao sentimento de culpa da morte do filho, que faleceu tragicamente em 2009 num acidente rodoviário no Brasil.

Enquanto observava o vídeo que partilho em cima, admito que as lágrimas me vieram aos olhos. Não apenas pela dor que se sente em cada palavra que ele profere mas porque o ser humano comete exactamente o mesmo erro sistematicamente todos os dias.

Trabalha-se arduamente todos os dias na tentativa que nada falte aos filhos. Passa-se mais tempo a trabalhar do que a vê-los crescer. Perdem-se momentos irrecuperáveis. Os primeiros passos, as primeiras palavras, aplaudir as conquistas e confortá-los nas derrotas. E um dia, sem que nada o faça prever, nada mais resta. Questionamos opções, porquês...

A vida é cruel. O ser humano faz o melhor que pode. Muitas vezes, a custos que ninguém sequer imagina. Há que priorizar. E não há dinheiro suficiente neste mundo que pague o sorriso de um filho, um abraço ou um "amo-te". Não vão pelas minhas palavras. Ouçam apenas as do Quinito.

Porquê, meu Deus. Porquê???

 

Indiana Jones é talvez, umas das personagens mais amadas por algum do pessoal da minha geração.

Sempre gostei dos filmes (embora o quarto já me tenha deixado com um certo amargo de boca), eram bom entretenimento para uma tarde de ócio. Admito que fiquei algo surpreso ao saber que se vai fazer um quinto filme da saga, o que me levou de imediato a inúmeras questões.

- Harrison Ford não tem por esta altura 76 anos?

- O gajo vai andar a perseguir artefactos históricos ou vai ser um deles?

- Como é que o filme se vai chamar? Indiana Jones e a Anca Perdida?

- Porque é que os estúdios teimam em mexer em sagas que estavam boas quietinhas e têm de fazer mais um filme com alto índice de probabilidade de correr mal?

- Será que o Sean Connery volta a aparecer como pai? Afinal de contas, só tem 85 anos e ainda deve estar aí para as curvas também.

Vamos ver no que isto dá. Só espero não ver o Indiana Jones a comer caldo verde por uma via intravenosa enquanto assiste ao programa matinal da Maria Helena e joga à bisca lambida.

Até sempre, gigante...

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Existem pessoas neste mundo que cruzam o nosso caminho de formas estranhas.

O meu caminho cruzou-se com o de Nicolau Breyner através do meu avô. Raros eram os fins de semana em que o meu avô não fazia questão de colocar um vinil no gira discos intitulado "Kiss me la bouche". Rock cómico, chamava-lhe ele.

Resumir o homem que foi Nicolau Breyner a um disco de 1981 é extremamente redutor. Mas foi aí que retive o nome que me esqueceria jamais.

Nicolau Breyner pertence a uma estirpe geracional de actores muito selectiva onde se faz acompanhar de Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho. Monstros culturais de valor inestimável que Portugal não está de todo preparado para perder. Não existem por ora, substitutos à altura.

A Nicolau, todos devemos o facto de existir ficção televisiva em Portugal. Isso e existir uma nova geração de actores. Não haverá um que possa dizer que não se sentiu de alguma forma inspirado por este senhor.

O Alentejo perdeu um dos seus filhos mais amados. O país, um dos seus ícones. O mundo, um diamante que nunca chegou a conhecer devidamente.

Este conceito de multiusos actual é muito à frente...

Na visita de hoje ao supermercado e enquanto cuscava as compras da gaja da frente (sim, é uma espécie de fetiche...Como o marido dela tinha ar de quem podia terminar a minha existência ali mesmo no tapete rolante das compras, entretenho-me a observar a alface, a garrafa de vinho tinto rasca e as 4 bolinhas de mistura...), dou-me conta de uma expressão hoje em dia utilizada em centenas de produtos do nosso dia a dia...

Multiusos...

Eu não só sou do tempo em que os detergentes tinham brindes lá dentro para os putos (mostrando total desinteresse sobre o facto de muitos putos desatarem a comer o detergente à colherada na ânsia de chegarem ao brinde mais depressa) como sou do tempo em que um determinado produto tinha apenas uma função...

O detergente para lavar a roupa à mão, por muito chocante que isto possa ser para vocês, servia unicamente para lavar a roupa...E ainda por cima, à mão...O TV Rural, servia para nos chatear os cornos porque na nossa tenra idade a última coisa que queríamos descobrir era que as nossas amadas batatas fritas eram na verdade um tubérculo (daí que na minha escola havia um grupo de verdadeiros amantes de batatas fritas apelidados de tuberculosos...) que era cultivado na terra...Ou que as garrafas verdes de Sonasol, serviam unicamente para lavar a loiça e não eram de forma alguma, versões de litro de 7Up...

Hoje em dia, não...Parece que a expressão multiusos difundiu-se por toda uma panóplia de produtos o que leva muitos consumidores a questionarem-se sobre a real utilização que devem dar aos mesmos...Vejamos alguns exemplos...

- Luvas multiusos...Bem, da última vez que eu vi, as luvas serviam para um tipo enfiar as ditas nas mãos...Com a evolução da humanidade e o poderio financeiro da população em baixo, suponho que a expressão multiusos se deve ao preço excessivo dos preservativos hoje em dia, o que leva os rapazolas a considerar as luvas uma alternativa mais barata às caixas de 12 unidades de preservas...

- Detergentes multiusos...Servem para lavar a loiça, o chão, o tecto, o cão, a patareca e se um gajo for imaginativo, até deve dar para fazer uma boa sangria. Tirando a parte da espuma, ninguém deve dar pela diferença.

- Cadeiras multiusos. Antigamente, estas apenas tinham uma função (que era um gajo sentar lá a peida). Mas com o avançar dos anos, ganharam toda uma nova panóplia de utilidades como armas de arremesso em processos de divórcio ou uma boa alternativa sexual ao quarto (nunca se sabe quando a fome aperta e se tem o jantar ao lume. Convém ficar por perto da cozinha).

- Maquilhagem multiusos...Imagino que sejam eyeliners com a capacidade de disfarçar riscos no carro. Sim, como naquela noite em que apanhaste uma cadela de tal ordem que não te recordavas dos últimos 6 anos da tua vida e que deixaste a tua mulher de tal forma f*dida da vida que ela fez do teu carro uma obra do Dali com o conjunto de facas de cozinha que lhe ofereceste pelos anos.

- Desodorizantes multiusos. No meu tempo, um desodorizante era isso. Mas agora? Nãooooo.....São desodorizantes, cicatrizantes, bactericidas, fungicidas e o diabo a sete. A questão que se coloca é...a que raio é que aquela m*rda cheira? Soda cáustica? E há lá coisa mais sexy que um homem a tresandar a soda cáustica... Ai, querido...esse aroma a canos desentupidos deixa-me louca de todo...

- Caldos multiusos. Caldos multiusos??? Sim, realmente na minha juventude conhecia um fulano que dizia que caldos de galinha da Knorr batiam forte e feio. Só se for esse tipo de multiusos.

- Decapante líquido multiusos. Cara leitora, está farta do seu marido? Tem uma sogra que quer mandar sorrateiramente para a quinta das tabuletas? Vai a um daqueles jantares de ex-colegas de turma mas preferia estar sossegada em casa a esvair-se em sangue? Pertence a uma seita que quer ir ter com os marcianos e o cianeto está caro? Temos a sua solução...

- Termómetros de penetração multiusos. Não sei porquê mas a partir do momento em que é um termómetro de penetração, deixa imediatamente de ser multiusos...

 

Caso estejam a pensar, não. Não fiz uma investigação extensiva durante meses a fio para escrever este post. Isto não é Sexta às 9, porra.

O racismo vive na porta ao lado

Dizem os sábios desta vida que todos os dias aprendemos algo novo. Seja o deleite de um novo livro folheado ou as consequências de meter os dedos na torradeira. Mas o que importa é que aprendemos. Bom ou mau.

Isto vale principalmente para as pessoas. Por vezes, julgamos que conhecemos as pessoas quando na realidade, não fazemos ideia de quem são.

Aproveitando o bom tempo que se fazia sentir, saí depois de almoço. Fui ao café onde encontrei a esposa de um amigo acompanhada da filhota. Adoro a miúda. Sete anos de pura irreverência, sentido de humor e caracóis louros selvagens. Sentei-me e colocámos a conversa em dia. A mãe ausentou-se por breves instantes para ir à casa de banho e fiquei na cavaqueira com a miúda.

 

- Então e diz-me lá, como anda a escola? - perguntei.

- Corre bem. Estou a tirar boas notas. - disse ela, com aquele sorriso juvenil que ilumina o mundo.

- Os teus pais devem estar felizes então... - disse eu a sorrir.

- Bem, o meu pai não ficou muito satisfeito com uma coisa...

- Então?

- Sabes, eu gosto muito de dançar. Mas o meu pai não me deixa ir para as aulas de hip hop.

- Porquê?

- Bem, ele diz que aquilo é música de pretos e que como ele não gosta deles, não me quer a dançar hip hop com as minhas amigas...

 

Caiu-me tudo. Não sei o que me fez sentir pior. Se descobrir que alguém por quem nutria estima se revelou um perfeito racista, se ouvir palavras desta índole da boca de uma criança. Entretanto, a mãe chegou e a menina afastou-se um pouco para brincar com outras crianças que ali estavam. E questionei-a.

 

- Olha lá, a miúda disse-me isto. É verdade?

Ela baixou a cabeça em perfeito silêncio, quase como envergonhada.

- Tu conheces-o. Sabes que ele não é má pessoa. É um excelente pai mas está longe de ser um perfeito ser humano...

- Ninguém é perfeito.Certo. Bom pai? A dar a entender à filha que é aceitável ser-se racista? Mas ele pensa que ainda vivemos de acordo com as Leis de Jim Crow? Proibir a miúda de frequentar aulas de hip hop? Segregação racial no sec. XXI?

Mais uma vez, silêncio.

 

Mãe e filha despediram-se de mim, deixando-me com os meus pensamentos. Temo por esta nova geração. Receio que os ódios antigos e convicções tacanhas falem mais alto e hipotequem alguma réstia de humanidade que nos reste. O racismo está mais presente que nunca nas nossas vidas. Basta proferir o nome de Donald Trump que me ocorrem dezenas de citações à mente. E as pessoas aplaudem. Bebem cada palavra como verdades absolutas. Sejam palavras carregadas de racismo ou xenofobismo. Ao que chegámos...

Da minha parte, não sei se conseguirei voltar a apertar a mão a esta pessoa. Não posso chamar amigo a alguém que se me visse junto de alguns familiares meus, talvez lhes cuspisse na cara. E quem cospe nos meus, cospe em mim.

Uma caixinha catita que permite pesquisar as entranhas dos últimos anos de posts. Muito útil, principalmente porque nem eu já me lembro de metade do que escrevi...

 

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